Sociedade

O Samba da Discórdia: Quando a Avenida se Torna o Tribunal da Moralidade Alheia

16 de Fevereiro, 2026 4 min de leitura Por Renata M. Pacheco

O Espetáculo sob Suspeita

A escola de samba Acadêmicos de Niterói levou à Sapucaí o enredo 'Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil'. O desfile, que contou com a presença do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, gerou controvérsia ao retratar o ex-presidente Jair Bolsonaro como o palhaço Bozo, acompanhado de referências a grades e tornozeleiras eletrônicas. Especialistas agora debatem se o gigantismo da homenagem configura propaganda eleitoral antecipada e 'efeito outdoor', enquanto a oposição promete acionar o TSE.

Sob a Lupa: A Estética do Conflito e o Espelho Social

O que vimos na Sapucaí não foi apenas um desfile de Carnaval, mas a materialização plástica de uma psique coletiva fragmentada. Para a 'bolha progressista', o desfile opera como um ritual de purgação e reparação histórica. Aqui, o fenômeno psicológico em jogo é a validação social: o grupo utiliza a estética carnavalesca para reafirmar sua vitória moral, transformando a avenida em um espaço de justiça simbólica onde o 'vilão' é satirizado e o 'herói' é divinizado. A presença de símbolos como a estrela e o uso de cores específicas funciona como um gatilho de pertencimento, reforçando a identidade da tribo.

Por outro lado, a 'bolha conservadora' reage sob a lente da percepção de injustiça e perseguição. Para este grupo, o desfile não é arte, mas uma peça de propaganda financiada indiretamente pelo erário, o que alimenta o sentimento de indignação e o tribalismo defensivo. O fenômeno do schadenfreude — o prazer secreto ou explícito no infortúnio alheio — é visível em ambos os lados: uns se deleitam com a caricatura do adversário preso; outros aguardam ansiosamente que o rigor da lei eleitoral 'puna' a escola de samba.

Do ponto de vista da conscienciologia e da psicologia das massas, o Carnaval atua como o 'extravasamento do id' da sociedade. No entanto, quando esse extravasamento é capturado por narrativas políticas rígidas, ele perde sua função de catarse coletiva e passa a servir como combustível para a dissonância cognitiva. Cada espectador filtrará as imagens para confirmar o que já acredita, ignorando qualquer nuance técnica ou histórica do enredo.

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A Reflexão

"Em um cenário onde a cultura se torna arma e a festa se torna fórum, resta-nos questionar: estamos perdendo a capacidade de compartilhar espaços comuns sem que eles precisem, obrigatoriamente, servir como um espelho de nossas próprias convicções políticas?"

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